Maria, Maria

Não se pode discordar que aquele sentimentalismo todo que dizem pertencer às mulheres é o que faz a vida acontecer.
Se não é da mulher que surge o equilíbrio, o bom senso e ousadia, já não se pode indicar outra espécie de mediador do homem com o Deus interior de cada um de nós.
Sabe-se da fraqueza feminina, se apresenta a guerreira. Fala-se das que envelheceram, apresentam-se marcas de sabedoria. E dentre as que permanecem caladas, vocês hão de convir, existem as mais surpreendentes figuras femininas. E me diga mais uma, mais uma centena de razões para se orgulhar de ser mulher.
Eis que um dia nós surgimos na Terra, fomos amadas, fizemos do amor uma grande razão para viver.
Parabéns a todas as que já foram, são e ainda serão orgulhosas mulheres, o mais alto cargo na grande indústria de emoções que é a humanidade. Um grito de Vitória, afinal somos todas Marias!

Retratos da infância

Naquela época, eu era apenas um leitor de O Pequeno Príncipe. Meus fios de cabelo mudavam de cor, a voz distoante.

Sonhava com o mundo que o livro me trazia, já que não se podia vivê-lo. O que será? Pouca leitura? Deve ser por isso que o final das histórias desse livro em que vivo fogem da originalidade. 

E eu lia e relia trechos de Antoine de Saint-Exupéry. “Há milhões e milhões de anos que as flores produzem espinhos. Há milhões e milhões de anos que, apesar disso, os carneiros comem. E não será importante procurar saber por que elas perdem tanto tempo produzindo espinhos inúteis?”

E era um desejo infinito de entender as flores e os carneiros. Naquela época, eu tinha espinhos e não sabia. E se haviam espinhos, já haviam carneiros. Se carneiros haviam, fazíamos parte de um mundo onde histórias escritas não era revelação a nenhum leitor. Não era seguro, não era efêmero. Era fantasia para um pequeno leitor de um grande livro. “Livro de criança? Com certeza. Livro de adulto também, pois todo homem traz dentro de si o menino que foi. […] O Pequeno Príncipe devolve a cada um o mistério da infância. De repente retornam os sonhos.”

Andorinhas do seu olhar

Eu estava do lado da janela sentada olhando através dos vidros escuros as andorinhas voando ansiosas e desorientadas e de repente, o som arranhado que o giz fazia no quadro me levou de volta às explicações incoerentes que só embaralhavam ainda mais os meus pensamentos. Os números se transformavam em novas andorinhas ainda ansiosas e desorientadas. Mas dessa vez eu estava entregue às lembranças. Ele não gostava que eu me sentasse sozinha, inquieta e pensativa. Me mostre seu sorriso! Mas dessa vez eu estava ali sentada sozinha, inquieta e pensativa e ele viu e não falou nada.

Ele queria que eu fosse até ele, mas eu falei que não. Sabia que ele queria que eu fosse até ele. Mas insisti a mim mesma que não. Ele sorriu desviando seu rosto e eu também sorri. E então ele queria me olhar mais uma vez e saiu dos pensamentos, voltou à aula. Eu estava sozinha, inquieta e ele não falou nada.

Enxerguei-o conversando com a outra que apenas balançou a cabeça e agora eles estavam rindo juntos, assim, um do outro. As andorinhas voando lá fora.

Eu estava olhando para as tantas andorinhas. Nós agíamos como duas, ansiosas e desorientadas.

Vendo minha distração, a professora que também parecida desorientada aos meus olhos, pediu a mim que lesse os dois últimos períodos de um texto que nem eu nem ele acompanhávamos, tenho certeza.

“Você não pode calcular o tanto que eu gosto de você. Eu gosto demais de você, demais, demais.”

Fechei os olhos, respirei fundo e olhei novamente em sua direção. Nada de olhares. Ele me respondeu com um sorriso e lá estava eu a me perder novamente com as andorinhas voando ansiosas e desorientadas.