História

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Era apenas uma folha em branco. Todos observavam suas ranhuras e seus pequenos defeitos, mas era tão perfeita que tinham pena de continuar a história da tão pequena folha. Parecia tão encantadora aos olhos, mas não conseguia tocar o coração dos que não viviam. Pensavam em escrever isto e aquilo, mas apenas à imaginação cabiam as palavras. Nunca ninguém havia se interessado em continuar a tão pequena história de uma perfeita lasca de papel. E mais uma vez ela era vista como intocável.

Até que um dia, já cansada de ser descartada, já pensando em um fim sem história, acaba sendo levada sem pretensões em uma pasta onde cabiam tantas histórias sem fim que não soube por onde começar. Repousada em uma mesa de vidro, observava seu verso, outro lado de muitas ranhuras e curvas perfeitas. Esquecida ali, houve apenas um homem na história que pela primeira vez notou mesmo sem experiência que a folha mais perfeita por fora era a que menos tinha histórias pra contar. E sem pena de usá-la, rasgá-la e cobri-la de riscos tortos e sem medida, tal homem a fez da mais interessante e extrovertida folha de papel. A fez de mocinha e vilã, de feliz e sofrida mulher, de inteligente e nobre plebeia. Das mais apaixonadas pela vida. Levou suas histórias de uma ponta a outra do mundo e ficou mais conhecida como amante de Dom Quixote e de Robinson Crusoé.

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AMOR IMPOSSÍVEL

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Em uma tribo de índios no sul do Brasil, eu, Oribici, amava o cacique e sonhava em me casar com ele. Mas, havia outra mulher, muito bela e admirada pela sua excelente pontaria. O cacique Tankamana acabou se casando com a outra.

Chorei tanto e por tantos dias, que se formou uma poça d’água com minhas lágrimas. Então, pedi a Tupã que me transformasse em pássaro para que eu pudesse ficar mais próxima do meu amor impossível. Meu desejo se concretizou. Pude ver de perto o grande amor que o cacique sentia pela mulher com quem havia se casado e a maneira carinhosa com que a tratava. Resolvi partir voando, com minhas leves asas, para bem longe.

Voei tão alto a fim de esquecer o passado que acabei descobrindo a maravilhosa sensação de liberdade. Assim, reconquistei a vontade de viver e passei a querer conhecer novos horizontes. E, mais uma vez, fui presenteada por Tupã, com um belo canto, que me fez ser admirada por todos, em todos os lugares pelos quais passei, levando alegria e esperança para muitos corações.

Com isso, aprendi que podemos encontrar a felicidade de muitas maneiras, basta sermos corajosos e não desanimarmos diante de obstáculos. Assim, transmitiremos sempre bons ensinamentos para todas as gerações que virão. 

 

Meu Ideal Seria Escrever…

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Rubem Braga

Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse — “ai meu Deus, que história mais engraçada!”. E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria — “mas essa história é mesmo muito engraçada!”.

Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.

Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse — e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse — “por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!” . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.

E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago — mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: “Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina”.

E quando todos me perguntassem — “mas de onde é que você tirou essa história?” — eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: “Ontem ouvi um sujeito contar uma história…”.

E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.

COMO SE FORA UM CORAÇÃO POSTIÇO

Rubem Braga

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Nasceu, na doce Budapeste, um menino com o coração fora do peito. Porém – diz um Dr. Mereje – não foi o primeiro. Em São Paulo, há sete anos, nasceu também uma criança assim. “Tinha o coração fora do peito, como se fora um coração postiço.”

Como se fora um coração postiço… O menino paulista viveu quatro horas. Vamos supor que tenha nascido às cinco horas. Cinco horas! Cinco horas! Um meu amigo, por nome Carlos, diria:

-… a hora em que os bares fecham e todas as vitudes se negam….

Madrugada paulista. Boceja na rua o último cidadão que passou a noite inteira fazendo esforço para ser boêmio. Há uma esperança de bonde em todos os postes. Os sinais das esquinas – vermelhos, amarelos, verdes – verdes, amarelos, vermelhos, borram o ar de amarelo, de verde, de vermelho. Os olhos inquietos da madrugada. Frio. Um homem qualquer, parado por acaso no Viaduto do Chá, contempla lá embaixo umas pobres árvores que ninguém jamais nunca contemplou. Humildes pés de manacá, lá embaixo. Pouquinhas flores roxas e brancas. Humildes manacás, em fila, pequenos, tristes, artificiais. As esquinas piscam. O olho vermelho do sinal sonolento, tonto na cerração, pede um poema que ninguém faz. Apitos lá longe. Passam homens de cara lavada, pobres, com embrulhos de jornais debaixo do braço. Esta velha mulher que vai andando pensa em outras madrugadas. Nasceu, em uma casa distante, em um subúrbio adormecido, um menino com o coração fora do peito. Ainda é noite dentro do quarto fechado, abafado, com a lâmpada acesa, gente suada. Menino do coração fora do peito, você devia vir cá fora receber o beijo da madrugada.

Seis horas. O coração fora do peito bae docemente. Sete horas – o coração bate… Oito horas – que sol claro, que barulho na rua! – o coração bate…

Nove horas – morreu o menino do coração fora do peito. Fez bem em morrer, menino. O Dr. Mereje resmunga: “Filho de pais alcoólatras e sifilíticos…” Deixe falar o Dr. Mereje. Ele é um médico, você é o menino do coração fora do peito. Está morto. Os “pais alcoólatras e sifilíticos” fazem o enterro banal do anjinho suburbano. Mas que anjinho engraçado! – diz Nossa Senhora da Penha. O anjinho está no céu. Está no limbo, com o coração fora do peito. Os outros anjinhos olham espantados. O que é isso, seu paulista? Mas o menino do coração fora do peito está se rindo. Não responde nada. Podia contar a sua história: “o Dr. Mereje disse que…” – mas não conta. Está rindo, mas está triste. Os anjinhos todos querem saber. Então o menino diz:

– Ora, pinhões! Eu nasci com o coração fora do peito. Queria que ele batesse ao ar livre, ao sol, à chuva. Queria que ele batesse livre, bem na vista de toda a gente, dos homens, das moças. Queria que ele vivesse à luz, ao vento, que batesse a descoberto, fora da prisão, da escuridão do peito. Que batesse como uma rosa que o vento balança…

Os anjinhos todos do limbo perguntaram:

– Mas então, paulistinha do coração fora do peito, pra que é que você foi morrer?

O anjinho respondeu:

– Eu vi que não tinha jeito. Lá embaixo todo mundo carrega o coração dentro do peito. Bem escondido, no escuro, com paletó, colete, camisa, pele, ossos, carne cobrindo. O coração trabalha sem ninguém ver. Se ele ficar fora do peito é logo ferido e morto, não tem defesa.

Os anjinhos todos do limbo estavam com os olhos espantados. O paulistinha foi falando:

– E às vezes, minha gente, tem paletó, colete, camisa, pele, ossos, carne, e no fim disso tudo, lá no fundo do peito, no escuro, não tem nada, não tem coração nenhum. E quando eu nasci, o Dr. Mereje olhou meu coração livre, batendo, feito uma rosa que balança ao vento, e disse, sem saber o que dizia: “parece um coração postiço”. Os homens todos, minha gente, são assim como o Dr. Mereje.

Os anjinhos estavam cada vez mais espantados. Pouco depois começaram a brincar de bandido e mocinho de cinema e aí, foi, acabou a história. Porém o menino estava aborrecido, foi dormir. Até agora, ele está dormindo. Deixa o anjinho dormir sono sossegado, Dr. Mereje!

FRANCOISE-NIELLY

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“A arte de Françoise Nielly é tipicamente vibrante, e detalhada. Uma grande parte de seu trabalho é inspirado na vida urbana. Françoise usa facas para pintar sua obra por conseguir as grossas pinceladas criadas por ela. Retratos parecem ser sua especialidade. Quando criança, ela foi ensinada por seu pai que não havia “nenhum espaço para erros”, e isso tem influenciado potencialmente a complexidade de sua obra de arte. Suas pinturas tem a presença de cores vivas e contrastantes.”

Ponto final

As horas passam e com o passar das horas eu sei onde você deve estar. Não sei o que está fazendo, no que está pensando nem com quem está conversando. E com o passar das horas percebo também que não é o suficiente. Mereço mais do que isso. Já abri todas as cartas que você teria de ter recebido. Ainda não coloquei os pontos finais e os parênteses que faltam para lhe explicar alguns poucos detalhes que deixou aqui comigo. Pra mim chega de cartas, eu quero abraços. E por mais que eu não saiba a continuação dessa história mais sem conteúdo eu continuo tentando planejar. 

As minhas cartas podem esclarecer alguns questionamentos, algumas noites sem dormir, mas não podem me trazer suas palavras. Elas são minhas e ponto final. E acaba aí. Mas eu quero mais, eu quero reticências. Eu quero brincar com você como eu brinco com as palavras, quero sentir o cheiro do seu perfume na folha em branco. Preciso de você pra continuar. Você pode até me dizer adeus mais uma vez, mas não existe adeus que nos torne distante, pelo menos não agora. Nos veremos em breve, em uma segunda-feira de manhã.

Inspiração:

“Não faço idéia de onde está no mundo. Mas sei que perdi o direito de saber há muito tempo. Não importa quantos anos se passem, sei que uma coisa continuará verdadeira como sempre: nos vemos em breve.”

Dear John